sexta-feira, 26 de março de 2010

dia triste no pina

Por Taciana Góes

Sou frequentadora assídua do centro espírita Missionários da Luz, que fica na avenida Encanta Moça, bem no coração de toda a confussão de ontem. Cheguei ao centro às 16h e não presenciei nada, apenas soube pela coordenadora que estava tendo um protesto no sinal da igreja católica e que os moradores estavam queimando pneus e colocando árvores. Continuei o meu compromisso de ontem com os jovens, ajeitando a biblioteca do centro. Quando deu 19h vivenciei um momento de terror. Escutei tiros e gritos. Estava saindo do centro quando uma multidão de homens, crianças e mulheres, armados de pau e pedra vinham correndo. E avisaram: a polícia tá quebrando tudo. Até então não sabia os reais motivos do protesto. Eles começaram a jogar pedras nas lâmpadas da avenida Encanta Moça, quando comecei a gritar que isso era sinal de burrice. Afinal quem ficaria sem a iluminação pública? E o que aconteceria? Um monte de assaltos para todos os moradores do bode que passam diariamente por ali. Um outro grupo puxava os fios de eletricidade com os galhos de árvores. Um deles, forte, alto, não me deu ouvidos e prosseguiu atirando a pedra em outra lâmpada. Por sorte não quebrou. Quando andei em direção a ele e comecei e pedir “por favor, não façam isso. Vamos ser inteligentes”. Aquela altura achei que seria linchada, mas uma mulher numa bicicleta, uma espécie de líder natural, começou a dizer que eu estava certa, que não adiantava quebrar a comunidade e que amanhã (hoje) iriam prosseguir com o protesto. De repente um senhor aparece no beco com a orelha sangrando. A cena parece ter exaltado ainda mais os ânimos. “Tá vendo, são as balas de borracha”, disse um deles. “Vamos matar esses policiais hoje”, gritava outro. Algums crianças me chamaram: “tia, tia, a polícia vai matar a gente”. Foi quando perguntei qual o propósito de eles estarem ali. As crianças falaram, meio que sem saber, que era porque a polícia prendeu uma moradora da comunidade que é apenas usuária de crack, como traficante, e que eles seriam o próximo alvo. Mesmo assim eu pedi para que voltassem para suas casas para não se machucarem. Eles não obedeceram. E seguiram aqueles homens com paus e pedras pela Encanta Moça, como se fossem seus reis. Até então eu tinha visto com meus olhos alguns deles chutando os veículos, quebrando galhos das árvores e jogando pedras nas lâmpadas. Parecia cenário de guerra. Quando saia com meu carro em direção a Boa Viagem pela Encanta Moça, abri os vidros e olhei nos olhos de cada um. E vi perfeitamente quando um deles deu o sinal para que me roubassem ou quebrassem meu vidro, mas o outro fez um sinal que não. “Ela é da creche”. Era hora de voltar para o bode. Meu coração palpitou no momento de todo o furduço, mas depois ficou pequeno de tanta tristeza. Na verdade aqueles moradores entraram na onda, porque no fundo protestam pelas condições precárias de moradia, pela forma truculenta como os policiais os tratam diariamente e principalmente a falta de perspectiva de vida. Nada justifica a violência. Mas se cada político se preocupar menos com o seu bolso, ou em servir lagostas para reis e rainhas; e oferecessem, pelo menos, um galeto para esta pobre e sofrida população, com certeza os moradores honestos não teriam tanta raiva enraizada nos seus corações. Vale salientar que naquele protesto tinha gente muito trabalhadora e outros que vivem de encontro com a lei. Não é tudo farinha do mesmo bolo, viu polícia? 

Fotos de Alexandro Auler/JC Imagem

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